Aprendendo com Orhan Pamuk [1]

“Escrever é uma percepção do espírito. É um trabalho ingrato que leva à solidão.” Blaise Cendrars (1887-1961), escritor francês.

Ferit Orhan Pamuk nasceu em Istambul, Turquia, em 7 de junho de 1952, contando atualmente com 55 anos. Oriundo de uma grande e aquinhoada família pôde estudar além-fronteiras.

Desde a sua juventude, mostrou ser amante das artes plásticas. Começou a cursar arquitetura, mas acabou por se licenciar em jornalismo pela Universidade de Istambul. Entretanto, nunca chegou a exercer a profissão, pois, aos 22 anos, decidiu dedicar-se em tempo integral à escrita. O seu primeiro romance, Cevdet Bey and His Sons, foi publicado sete anos depois, em 1982, tendo sido distinguido com dois prêmios literários da Turquia. No ano seguinte, foi publicada a obra The Silent House, que conquistou, na França, o Prix de la Découverte Européene. O livro que marcou sua ascensão no mercado literário internacional foi A Cidadela Branca, publicado em 1985, na Turquia, e, no ano 2000, em Portugal.

Seus textos retratam as vivências turcas, as desigualdades entre os cidadãos da atual Istambul, assim como as comparações feitas entre a Turquia otomana e a Turquia moderna.

Entre 1985 e 1988, Pamuk foi professor convidado da conceituadíssima Universidade de Columbia, em Nova Iorque.  Foi nessa metrópole que Orhan Pamuk escreveu grande parte do livro Os Jardins da Memória, distinguido na França com o Prix France Culture. Essa foi a obra que o consolidou como autor de reputação internacional.

Seu romance A Vida Nova é um dos livros mais lidos em seu país. Retrata a obsessão de um jovem estudante por um livro mágico. A essa obra seguiram-se: Meu Nome é Vermelho – distinguida com três prestigiados prêmios literários internacionais – é uma de suas mais afamadas produções. Trata-se de um romance que se passa no século XVI, na Turquia, onde se mesclam mistério e amor. Snow é um livro de memórias da cidade onde o autor nasceu e tem vivido a maior parte de sua vida.

Sua carreira nas letras tem sido muito bem-sucedida, tornando-se, na atualidade, no maior romancista turco. Sua fama extrapolou seu país, pois seus livros já foram traduzidos para mais de trinta vernáculos, estando presentes em mais de 40 países.

Entretanto, teve igualmente uma projeção sinistra. Num artigo de sua autoria publicado em jornal suíço, teve a coragem de acusar seu país da prática de genocídio contra os armênios, após a I Grande Guerra Mundial, pelo assassinato de 30 mil curdos. Se por um lado teve que enfrentar a justiça turca em tribunais, por outro, seu nome percorreu o mundo, tamanha foi a repercussão a seu favor que este caso suscitou.

Infelizmente, em fevereiro de 2007, indignado com o assassinato do jornalista e escritor Hrant Dink por um fanático nacionalista, que também o ameaçou com o mesmo desfecho, resolveu deixar a Turquia por tempo indeterminado.

Os livros e o trabalho de Orhan Pamuk têm sido galardoados com diversos prêmios literários de projeção internacional. Além dos já assinalados foi distinguido com o Prêmio Internacional IMPAC, em Dublin (2003); o Friedenspreis (2005) e o Prêmio Médicis para literatura estrangeira (2006).

Contudo, a consagração máxima em sua vida veio aos 54 anos, em 2006, pela outorga do Prêmio Nobel de Literatura desse ano, sendo o primeiro a recebê-lo de sua terra natal. Assim justificou o Comitê do Nobel: “em busca da alma melancólica da sua terra natal encontrou novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas”.

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  Orhan Pamuk

Lendo a tradução do discurso que proferiu por ocasião da solenidade magna da entrega do Prêmio Nobel, chamou-me atenção não por ter sido longo, erudito ou rebuscado, ao contrário, por ter sido elaborado num linguajar coloquialmente simples, como as grandes verdades da vida, prendendo naturalmente a atenção do ouvinte ou do leitor.

O fulcro de sua fala desenrolou mostrando o seu bom relacionamento com seu pai, a quem sempre o apoiou como escritor, muito antes de sua fama.  Abordou com suspense e reflexões um fato que muito o marcou. Seu pai havia-lhe deixado uma pequena valise, contendo manuscritos e cadernos, pois já vislumbrava o término de seu tempo. Pedia para que bem a guardasse e a abrisse somente após sua derradeira partida.

Relutava em abri-la por temor de descobrir que seu pai pudesse ser um bom escritor, pois desejava que ele fosse apenas seu pai.  Nesse impasse ele afirma que o “segredo do escritor não é inspiração – pois nunca está claro de onde ela vem –, é a sua teimosia, a sua paciência”.

Confessou que seu pai tivera uma grande biblioteca e que em sua mocidade desejara ser um poeta em Istambul. Ademais, reconheceu que ele jamais esquecera de muito lhe falar dos escritores mundiais, dos paxás e dos grandes líderes religiosos. Contudo, questionou: como seria possível ao meu pai ser um escritor se ele não era afeito à solidão, assim como ele, Pamuk, havia experimentado? Ao contrário, seu pai amava as multidões, as companhias, misturando-se com amigos e partilhando piadas. Daí, define que “escrever é transformar o olhar para dentro em palavras, estudar o mundo em que essa pessoa entra quando se retira para dentro de si, e fazê-lo com paciência, obstinação e alegria”. Por conseguinte, refere que “um autor tenta por anos descobrir o segundo ser dentro dele”.

Em outras palavras, Pamuk aproveitava esse fato para reafirmar uma grande verdade atinente a todo(a) aquele(a) que extravasa na escrita suas idéias ou os seus sentimentos. O escritor é um ser solitário, ou melhor, produz sua obra no interior de sua solidão, consigo mesmo, na intimidade casta de seu ser, sem mais ninguém, não deixando de ser aquilo que escreve, que evidencia, que manifesta aos outros, um presente muito original, pois é parte de sua vivência, ou até um pedaço de si mesmo.

Pamuk após muitas conjecturas e ponderações, não se conteve e abriu a valise dias após, fato esse percebido e apreciado caladamente por seu pai em visita realizada na semana seguinte. Não chegou a explicitar o seu teor, mas, veladamente, deu a entender que nela continha escritos pessoais não-compartilhados que seu pai tivera feito ao largo da vida.

Nas entrelinhas dessa cena, percebemos não apenas uma influência genética na verve literária de Pamuk, como também ratifica-nos que todo artista e, particularmente o escritor, pode-se perpetuar no tempo e atravessar virtualmente mundos geográficos díspares – germens da imortalidade e do reconhecimento a que todo ser humano aspira –, tão longo quanto forem preservadas e divulgadas suas obras.

Tenhamos certeza de que a Sobrames – SP constitui-se num cenáculo onde se cultivam tais virtudes.


[1] O Bandeirante. Ano XVI – no 177 (agosto): 1 e 12, 2007; Suplemento Cultural da Revista da Associação Paulista de Medicina – no 183 (agosto/setembro): 2-3, 2007.

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