“Vita Brevis, Ars Longa” – “A Vida é Curta, a Arte é Longa”. Hipócrates(460 a.C-370 a.C.)
Não sei se o aforismo popular “De médico e de louco todo mundo tem um pouco”, realmente se aplica a todas as pessoas. Contudo, se a medicina é também uma arte, como tradicionalmente se considera desde os tempos hipocráticos, com mais chance de acerto, poder-se-ia dizer que o seu protagonista só pode ser um artista.
Aliás, no Juramento de Hipócrates, escrito originalmente em grego jônico, no longínquo século V a.C., o vocábulo “arte”, aparece três vezes: “Eu juro (…) estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; (…); Ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte(…); Conservarei imaculada minha vida e minha arte(…)”.
O jovem, que tem vocação para a medicina, não é somente colocado desde cedo a saborear a incomensurável beleza da formação e desenvolvimento do ser humano, mas também a enfrentar as agruras da existência; a se deleitar nos segredos microscópicos da inefável constituição dos diferentes tecidos… do funcionamento maravilhosamente sinérgico dos órgãos e sistemas, mas também a se decepcionar pelos estragos temporários ou definitivos que a doença se lhes pode infligir e modificar; a tratar com ternura e empenho aquele que padece, entretanto, sem esperar reconhecimentos ou elogios, particularmente daqueles que não gozam da normalidade mental; a lutar pela saúde e pela vida, mas aprender com humildade que morte será ao final, invariavelmente a grande vencedora, contribuindo a seu favor o esgotamento do tempo que ainda resta.
Assim, conviver desde jovem, diuturnamente com a doença… o doente e seus percalços… suas dores e limitações, humanizando a vida, é tarefa somente para artistas, e, dentre estes de modo mui particular, se insere o médico. A medicina não é somente o exercício de uma arte, mas também fonte de inspiração artística a quem queira desenvolver seus talentos latentes.
Além dos dotes que o médico deve desenvolver no exercício de sua profissão no trato humano, não é incomum, igualmente, se observar outros pendores artísticos, ainda que ele os expresse de modo amadorístico ou como passatempo, tais como nas artes cênicas, artes plásticas: desenho, pintura, escultura, gravura; na fotografia, canto, música e, de modo mais expressivo, na literatura, haja vista uma miríade de exemplos neste particular.
Na verdade, a grande maioria dos médicos saboreia e expressa seus dons artísticos, quase que no anonimato, artesanalmente, evidenciando, por vezes, seu talento em resultados de concursos.
A arte está entranhada, amalgamada ontogenicamente no exercício da medicina. Em outras palavras: medicina e arte constituem-se uma simbiose antiquíssima e benfazeja, tanto aos médicos quanto aos pacientes!
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[1]Asclépio – Boletim da Academia de Medicina de São Paulo. Ano 9 – no20 (julho-dezembro): 1, 2018 (editorial).
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