A fé é a firme garantia do que se espera, a prova do que não se vê. Epístola de São Paulo aos Hebreus 11,1.
Fundamentalistas, Ateus e Fé
A sociedade na época das cavernas não é a mesma dos tempos bíblicos abraâmicos; esta, também difere daquela encontrada nos primórdios do cristianismo. Por sua vez, é diferente da Idade Medieval e nada tem a ver com o mundo contemporâneo. Contudo, em todas as épocas persiste um só fio condutor – o homem – da maravilhosa saga humana.
Felizmente, hoje em dia, apesar de toda a tecnologia reinante e da disseminação da cultura do self service, do descartável e do materialismo explícito ou dissimulado, a imensa maioria das pessoas do planeta Terra são teístas – acreditam num Ser superior – “Causa Primeira”: soberano, inteligente, transcendente, independente, eterno, consciente, livre e determinante –, que criou as condições ou a “ciência” para o surgimento de todo o universo e, em decorrência, todas as coisas visíveis e invisíveis, animadas e inanimadas, racionais e irracionais.
Por sua vez, muitos dos crentes, infelizmente, não são praticantes de sua respectiva fé, visto que assumem posturas não condizentes com a doutrina professada, seduzidos que são por conceitos e correntes pseudoteístas ou neoateístas.
Por outro lado, ainda há países e ativistas fundamentalistas que se encastelam em suas convicções religiosas e, formando hostes, não medem esforços em seu proselitismo, quer não permitindo ampla liberdade de crença e de culto; quer limitando benefícios sociais àqueles que não comungam de suas ideias; quer chegando até à perseguição ou ao extermínio bárbaro dos ditos “infiéis”, paradoxalmente, em nome de “Deus” – que também é denominado por Alá, Jeová, Javé, Adonai, Altíssimo, Todo-Poderoso, Abba, Senhor, Emanuel, Santíssimo… – aliás, como tem sido visto diversificadamente em hordas facínoras de facções islâmicas.
Não chegando a essa extrema psicopatia coletiva, associada a uma anomalia de caráter mesclada com covardia e vileza dos fundamentalistas mulçumanos – que beira não somente às raias da irracionalidade, mas também a da desumanidade e à perversão do significado de fé –, deve-se salientar também que, a hodierna, pequena e confessa militância ateísta é notadamente articulada e, por vezes, não assume postura de diálogo ou de aceitação da liberdade de expressão, mas age sutil ou explicitamente com desprezo e desdém à religião, aos seus representantes, assim como àqueles que creem.
Com relação ao confortável statusde ateu poderia tranquila e despretensiosamente dizer: A alegria do ateu é saber que Deus não pode ser provado. Sua tristeza, é saber que tampouco pode-se provar a inexistência Dele. Sua desolação é saber que entre as evidências racionais a favor e contra, as primeiras prevalecem.
Em outras palavras, por incrível que possa parecer, a segurança dos que acreditam em Deus é a mesma daqueles que O negam. Contudo, as considerações dos ateus desarticulam-se e volatilizam-se mais facilmente diante da argumentação filosófica, científica, lógica e racional.
Há deficientes que foram desprovidos total ou parcialmente de suas funções. Entretanto, também há aqueles que embora tenham suas funções preservadas não querem ou não as utilizam na busca da verdade. Figuradamente, são pessoas que veem…, mas não enxergam; mastigam…, mas não saboreiam; escutam…, mas não ouvem; deglutem…, mas não assimilam; entendem…, mas não compreendem; tocam…, mais não sentem; pensam…, mas não refletem; andam…, sem sair do lugar. E neste rol, seguramente, encontram-se boa parte dos crentes e ateus.
Em contrapartida, acredito também que a fronteira intelectual que separa o crente do incréu, paradoxalmente, é tênue, sinuosa e com nuanças sutis, favorecendo, por vezes, a mudança de posição tanto de um lado quando do outro.
A fé é uma resposta às nobres indagações do imo humano.É uma ousadia incoercível do intelecto e da liberdade. É uma penhora indefectível de si mesmo. É querer enxergar nítido o que está sutilmente velado.
Crentes, Cristãos e Católicos
Situo-me entre a imensa maioria da população do planeta – os crentes – que, por um motivo de coerência, tentam conhecer, se aprofundar, testar, confrontar e viver aquilo que acreditam. O homem, por ser criatura dotada de razão, busca em seu íntimo, ainda que de forma imperfeita, a verdade: a fidedigna explicação de fatos, evidências e ações. E talvez não haja mais contundente e colossal evidência que se nos apresenta do que o universo e sua origem – a sua Causa primeira. Contudo, além do macrocosmo incomensurável, há também a evidência intrigante do microcosmo, que se esconde em perfeita harmonia e organização no interior de uma célula e até de um átomo.
Aliás, homeostase[2]é um outro nome da taumaturgia de estar vivo, condição essa que se repete a todo instante. Em outras palavras, homeostase é o milagre da existência que se repete ininterruptamente, ou ainda é outro nome do milagre de estar vivo.
A busca da verdade sempre foi ambicionada pelo homem desde tempos imemoriais. Aliás, a verdade, assim como o amor, a perfeição, a pureza, a ciência, a sabedoria, a justiça, a fidelidade, a misericórdia, a honestidade são também dentre outros, atributos de Deus.
Contudo, a verdade de Deus – Ser Perfeito – jamais será completamente compreendida pelo ser humano – ser imperfeito – que, se não for a obra-prima da criação é, com certeza, a do planeta Terra. A verdade não é personalista ou meramente sentimental. Humildemente, discordo de Galileu Galilei (1564-1642), físico, astrônomo e filósofo italiano, que dissera: “Nada podemos ensinar a um homem, a não ser ajudá-lo a encontrar as verdades dentro de si mesmo”. A verdade não está apenas dentro de nós. Ela não é subjetiva, circunstancial. Tem um valor imanente, transcendental e insaciável. Neste aspecto, troco Galileu Galilei por Jesus Cristo: “Eu sou o caminho a verdade e a vida”(Jo 14,6).
E tentando compreender a dificuldade de se chegar ao conceito de verdade lato sensu, assim sintetizei após muitos anos de reflexão: Chegaríamos próximos à verdade se ao analisarmos determinado fato, o víssemos simultaneamente não somente por todas as suas arestas, mas também pelo seu avesso, através da sua imanência interior. De maneira ubíqua ao longo do tempo; cabal quanto à sua forma e conteúdo; e onissapiente ao sabor do conhecimento.
O homem desde as suas origens, independentemente de sua cultura e localização geográfica, sempre atestou nas mais primitivas formas de arte e de expressão, sua atração e fascínio pelo Criador, denominando-o e caricaturando-o de diversas maneiras. A esta condição eu particularmente denomino de “instinto de religiosidade”, tão inato ao ser humano quanto o da sobrevivência.
Eu acredito também que o ser humano possui além do instinto de sobrevivência, o “da religiosidade”, o “da transcendência”. Aliás, desde priscas eras esse anseio está consignado no Salmo 63 (62), 2: “Ó Deus, vós sois o meu Deus, com ardor vos procuro. Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela como a terra árida e sequiosa, sem água”.
O filósofo racionalista Benedict Spinoza (1632-1677) já asseverava no século XVII, que “é da natureza da razão perceber as coisas sob um certo aspecto de eternidade”. Contudo, acredito que quem melhor sintetizou a necessidade imanente de o ser humano buscar a Deus foi o genial e santo filósofoAurélio Agostinho (354-430), bispo de Hipona. Em poucas e singelas palavras ele alinhavou esse conceito numa singela, porém densa oração – verdadeira pérola! –, em seu livro Confissões I 1: “Senhor, Tu nos fizeste para Ti,e inquieto é o nosso coraçãoenquanto não repousar em Ti”.
Não há dúvida de que o mundo se apresenta com cores muito mais vivas para aqueles de creem. Ademais, estes são também mais compassivos, caridosos e esperançosos, visto que nutrem com uma certeza não desprovida de credenciais, depois de decorrido o respectivo prazo de existência, a possibilidade de contemplar a Deus – face a Face.
Acredito que essa possibilidade é dada pelo Criador a todo crente, independentemente de sua religião, que viva com amor e coerentemente a sua fé. Afinal, se Deus fosse apenas justo e honesto, e não tivesse amor e misericórdia, provavelmente ninguém ou muito poucos teriam o privilégio de se unir a Ele após a morte. Aliás, como entender e conciliar coerentemente em Deus – o Sumo Bem –, Seus predicados de justiça e de misericórdia em face da salvação eterna do homem – criatura imperfeita, impura e pecadora? Após muito pensar sobre esse dilema o equacionei desta forma: Só há almas junto a Deus porque Sua infinita misericórdia é maior do que Sua infinita justiça[3].
Hoje em dia, afortunadamente, o mundo e a humanidade civilizada – evoluída fraterna e racionalmente –, caminham para o diálogo, a liberdade, a tolerância religiosa, o respeito à vida e ao meio ambiente, que explicitamente são uma forma de respeito ao ser humano e, implicitamente, são também uma maneira de respeito à criação e ao Criador.
Embora não negligencie as palavras que Jesus disse aos seus discípulos: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda criatura!(Mc 16,15); Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28,19), pois nelasresidem a dimensão missionária da Igreja, acredito que o anúncio do Evangelho deva sempre ser feito com palavras e com gestos concretos, mas as conversões deverão ser espontâneas, sem barganhas ou ameaças. Certamente, essa coerção, política de troca de favores ou teologia de prosperidades não se aplica ao catolicismo, assim como às igrejas derivadas da Reforma Protestante[4], e que estão empenhadas no sucesso do Ecumenismo[5]. Em outras palavras, devemos agir como preceitua o ditado popular: “Fazer o bem sem olhar a quem”, independentemente de convicções religiosas.
Embora tenha respeito a ateus, agnósticos e crentes cristãos e não cristãos de quaisquer religiões, sinalizo minha alegria de ser católico como aconselhado na primeira Epístola de São Pedro: “Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança” (1Pd 3, 15).
Acredito que Jesus Cristo é a segunda pessoa da Santíssima Trindade – o Filho de Deus – que foi enviado para resgatar o homem maculado pelo pecado. Acredito também – com muita convicção – de que as bimilenares palavras de Jesus ao acenar não somente sobre a fundação de sua Igreja, mas também sobre a função de seus dirigentes – membros a ela consagrados –, encontram-se original e genuinamente preservadas na Igreja Católica Apostólica Romana. Dentre esses belos textos do Novo Testamento cito:
“Jesus disse a Simão: Não tenhas medo! De agora em diante serás pescador de homens!”(Lc 5,11);
“Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos discípulos: Quem dizem as pessoas ser o Filho do Homem?Eles responderam: Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas.E vós, retomou Jesus, quem dizeis que eu sou? Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.Jesus então declarou: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças do Inferno não poderão vencê-la.Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”(Mt 16, 14-20);
“Jesus disse, de novo: A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou também eu vos envio. Então, soprou sobre eles e falou: recebei o Espírito Santo.A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos”(Jo 20, 22-24);
“Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes? Pedro respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Jesus lhe disse: Cuida dos meus cordeiros.E disse-lhe, pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Jesus lhe disse: Apascenta minhas ovelhas.Pela terceira vez, perguntou a Pedro: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro ficou triste, porque lhe perguntou pela terceira vez se o amava. E respondeu: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo. Jesus disse-lhe: Cuida das minhas ovelhas”(Jo 21, 16-18);
“Quando chegou a hora, Jesus pôs-se à mesa com os apóstolose disse: Ardentemente desejei comer convosco esta ceia pascal, antes de padecer.Pois eu vos digo que não mais a comerei, até que ela se realize no Reino de Deus.Então pegou o cálice, deu graças e disse: Recebei este cálice e fazei passar entre vós;pois eu vos digo que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus.A seguir, tomou o pão, deu graças, partiu-o e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim.Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós”(Lc 22, 15-21).
Provavelmente, Jesus Cristo já havia previsto que haveria diversidade na maneira de se propagar sua doutrina entre seus seguidores, residindo aí, implicitamente, uma lição de tolerância: “João disse a Jesus: Mestre, vimos alguém expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não andava conosco.Jesus, porém, disse: Não o proibais, pois ninguém que faz milagres em meu nome poderá logo depois falar mal de mim.Quem não é contra nós, está a nosso favor”(Mc 9, 39-41).
Contudo, o que se vê atualmente nas mídias com relação às recentes denominações evangélicas neopentecostais é um verdadeiro supermercado da fé, visto que se procura não somente de forma sensacionalista e, por vezes até enganadora, fazer proselitismo hollywoodiano, a fim de aliciar desbragadamente neoadeptos aos seus rebanhos.
Em outras palavras, vê-se não um lídimo exercício da fé, mas uma verdadeira guerra de marketing, onde seus grandes protagonistas – pastores e ministros dessas igrejas ou seitas – são verdadeiros artistas e atores.
Há aqueles que, incultamente, estimulados pelos seus líderes religiosos, querendo menosprezar os católicos ou protestantes tradicionais e suas respectivas práticas religiosas, inflam o peito e de nariz empinado e o dedo em riste, empoladamente se denominam de crentes ou evangélicos.
Desafortunadamente, com pouco espírito de diálogo e até de compreensão, ignoram que todo fiel católico é também crente e evangélico, mas nenhum crente ou evangélico é católico.
Na verdade, muitos incautos que se deixam cair nas malhas das propagandas neopentecostais se tornam embotados por uma lavagem cerebral persuasiva e emocional. Contudo, a fé não é meramente um sentimento e jamais deve preterir o uso da razão.
Historicamente pode-se asseverar que a fé cristã só é, hoje em dia, garbosamente professada por inúmeras denominações religiosas que esfacelaram o tradicional protestantismo, porque foi incolumemente guardada e ousadamente difundida até o século XVI por uma heroica miríade de mártires, missionários, religiosos, crentes, evangélicos, leigos… enfim, de santos e santas do catolicismo. E esta saga continua sendo escrita bravamente com a vida de homens e mulheres da genuína Igreja de Cristo.
[1]Este texto recebeu menção honrosa na modalidade “Ensaios”, do concurso anual de literatura da Abrames – Academia Brasileira de Médicos Escritores, entregue na Semana da Abrames, de 8 a 10 de novembro de 2018, na cidade do Rio de Janeiro.
[2]Homeostase é um vocábulo forjado pelo grande fisiologista francês Claude Bernard (1813-1878), no século XIX, Pai da medicina experimental. Pode ser definido como as propriedades autorreguladoras de um sistema ou organismo que permite manter através de centenas ou milhares de reações físico-químicas simultâneas, subsequentes e ininterruptas, o estado de equilíbrio de suas variáveis essenciais no meio interno ou de seu meio ambiente.
[3]Esse singelo pensamento expresso em duas linhas foi sintetizado após anos a fio de reflexão, tendo como angustiante tema, a destinação derradeira da criatura imperfeita com a perfeição infinita do Criador. Nestes dizeres há uma incongruência matemática, solucionada pelo encanto do sortilégio da palavra escrita.
A resposta da Igreja Católica Romanafoi o movimento conhecido como Contrarreforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento(1545-1563). O resultado da Reforma Protestante foi a divisão da chamada Igreja do Ocidenteentre os católicos romanose os reformadosou protestantes, originando o protestantismo.
[5]O termo ecumênicoprovém da palavra grega “oikouméne”, significando “mundo habitado”. Num sentido mais restrito, emprega-se o termo para os esforços em favor da unidade entre igrejas cristãs; num sentido amplo, pode designar o trabalho pela unidade entre as religiões. O ecumenismo é a busca da aproximação, do diálogo, da cooperação, da convivência fraterna, almejando atenuar e eliminar as divisões entre as diferentes igrejas cristãs. Tenciona superar as divergências históricas e culturais a partir de uma reconciliação cristã, que aceite a diversidade entre as igrejas. Nos ambientes cristãos, a relação com outras religiões se costuma denominar por “diálogo inter-religioso”.
Obrigado!