“Nada é permanente, salvo a mudança.” Heráclitode Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.), filósofo pré-socrático é considerado o “Pai da Dialética”.
A renovação é a lei da vida, pois ela é fundamental para a permanência da existência. Um ser que não se renova; não se protege das intempéries; não se adapta às vicissitudes de seu entorno; não se regenera quando ferido ou achacado pela doença está fadado a enfraquecer e a fenecer. Aliás, singelas, mas sábias são as bimilenares palavras do vate da antiga Roma, Públio Ovídio Naso (43 a.C. – ano 17 ou 18 d.C.), mais conhecido simplesmente por Ovídio: “E amanhã não seremos o que fomos, nem o que somos”.
Não há dúvidas de que essas premissas que vicejam nos seres vivos tornam-se peremptoriamente presentes também na existência e na robustez de instituições e entidades. Em outras palavras, greis que não se renovam, não se adaptam, não se repensam, não se reinventam, não se reorganizam, não se reabilitam estão fatidicamente ameaçadas ao desaparecimento.
A Academia de Medicina de São Paulo é um oportuno e benfazejo exemplo dessas virtudes, pois se constitui na mais antiga instituição médica de existência ininterrupta do estado de São Paulo e na quarta do Brasil!!! Fundada como Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo por um grupo de expoentes da medicina paulista no crepúsculo do século XIX, precisamente em 7 de março de 1895, teve, na sua atual denominação que remonta o ano de 1954 – 59 anos após o seu surgimento! –, na gestão de Eurico Branco Ribeiro(1954-1955), o resgate conceitual de sua essência e identidade. Contudo, essa mudança não trouxe a devida adaptação na alocação de seus membros emcadeiras, a exemplo das centenas de entidades congêneres existentes.Esse tentofoi somente conseguido 50 anos depois (!!!) da mudança do nome da entidade, com aatualização do seu Estatuto, aprovado em Assembleia Extraordinária realizada em 12 denovembro de 2004, no final da primeira gestão de Guido Arturo Palomba(2003-2004).Dentre os predicados irrenunciáveis das academias estão a preservação, o cultivoe a divulgação da memória e feitos de seus membros, e, de modo mui particular, de seus patronos.
Ao longo de seus 124 anos de pujante existência, a Academia de Medicina de São Paulo foi conduzida por 87 presidentes em 99 mandatos, que, desde seus albores até o ano de 1967, precisamente na gestão de Durval Sarmento da Rosa Borges(1966-1967), tiveram mandatos anuais, praxe que perdurou por 72 anos! Seu sucessor, Virgílio Alves de Carvalho Pinto– 65opresidente (1967-1968) –, foi o primeiro que teve o mandato bienal, prática que vigora até os dias de hoje.
Aos tempos do mandato anual, a gestão ora se iniciava em março dos anos ímpares e terminava no mesmo mês dos anos pares, ora começava em março dos anos pares e terminava em março dos anos ímpares (1895-1896; 1896-1897; 1897-1898… ), tendo sempre em relevância que 7 de março é a data em que se celebra a fundação do sodalício. Com o advento dos mandatos bienais, a gestão sempre se inicia e termina nos anos impares; contudo, como os últimos dois meses e sete dias de gestão há recesso de atividades em virtude das festas natalinas e de férias, mnemonicamente registra-se o término da gestão nos anos pares. A transmissão do cargo procura coincidir com uma data próxima de 7 de março, quando se comemora a data máxima da entidade.
Não se sabe ao certo o motivo do mandato anual desde épocas primevas. Contudo, pode-se inferir que, como a Academia de Medicina de São Paulo sempre esteve repleta de médicos notáveis, a alternância anual no cargo facultaria a que um maior número deles tivesse também a honra de presidi-la. Ademais, tendo apenas 12 meses para cumprir um mandato, o presidente daria o melhor de si para realizar uma gestão exitosa.
Apenas 12 dos 87 médicos que presidiram a Academia de Medicina de São Paulo tiveram duplo mandato, sendo que em dez deles os mandatos foram não consecutivos: 1. Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho (1901-1902 e 1906-1907); 2. Sérgio Florentino de Paiva Meira (1902-1903 e 1909-1910); 3. Domingos Rubião Alves Meira (meio mandato anual entre 1905-1906 e um mandato anual entre 1911-1912); 4. Affonso Regulo de Oliveira Fausto(meio mandato anual entre 1905-1906 e um mandato anual entre 1916-1917); 5. João Alves de Lima (1907-1908 e 1913-1914); 6. Celestino Bourroul (1917-1918 e 1938-1939); 7. Ovídio Pires de Campos (1918-1919 e 1935-1936); 8. José Ayres Netto (1919-1920 e 1934-1935); 9. José Pereira Gomes (1927-1928 e 1950-1951); 10. GuidoArturo Palomba (2003-2004 e 2007-2008); 11. Affonso Renato Meira (2011-2012 e 2013-2014) e 12. José Roberto de Souza Baratella(2015-2016 e 2017-2018).
Interessante observar que José Pereira Gomes,Celestino Bourroul, Ovídio Pires de Campos e José Ayres Netto voltaram ao poder, respectivamente, 22, 20, 16 e 14 anos após o término do primeiro mandato!
Por sua vez, por terem exercido duplo mandato em regime bienal, apenas três presidentes da contemporaneidade governaram a entidade por um período de quatro anos: 1. GuidoArturo Palomba; 2. Affonso Renato Meira e 3. José Roberto de Souza Baratella. Da mesma forma, digno de nota é o fato de que dentro do colégio de presidentes houve tão-somente três mulheres: 1. CarmenEscobar Pires (1951-1952), que foi não somente a primeira mulher a presidir a Academia de Medicina de São Paulo, mas também a primeira mulher que presidiu uma entidade médica no Brasil (!!!), hoje honrada como patronesse da cadeira no112 desse egrégio sodalício; 2. Marisa Campos Moraes Amato (1997-1998); e 3. Yvonne Capuano (2009-2010).
Esses fatos dentre tantos outros, que se fizeram história na saga da vetusta Academia de Medicina de São Paulo, atestam a versatilidade e a adaptabilidade que sucessivas diretorias do sodalício empreenderam em sua honrosa trajetória que, aliás, está presente nos últimos três séculos: XIX, XX e XXI.
John Fitzgerald Kennedy (1917-1963), 35oe o segundo mais jovem presidente dos Estados Unidos da América (1961-1963), indubitavelmente, uma das grandes personalidades que marcaram século XX, consignou: “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão, com certeza, perder o futuro”. E esse porvir continua firme e promissor na augusta Academia de Medicina de São Paulo, agora, através de nova diretoria eleita em recente sufrágio, capitaneada pelo acadêmico José Luiz Gomes do Amaral. Não restam dúvidas de que todos os membros desse querido silogeu devem apoiar a nova diretoria. Afinal, todos temos o privilégio inaudito de fazer parte dessa gloriosa história!!!
Obrigado!