Medicina, Virtudes e a Arte de Escrever [1]

Escrever é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.” Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e fundador da Academia Brasileira de Letras, sendo seu primeiro presidente.

Não tenho dúvida que dentre os predicados para ser um bom médico estejam sumariamente condensados em tão-somente três: 1. Aprendizado constante com dedicação e perseverança através do estudocomo fonte do saber para proporcionar o melhor de si; 2. Exercício do humanismono trato com o semelhante, incluindo aí as diversas virtudes de uma boa educação auferida desde o berço, assim como – sem a menor pieguice – a necessidade de se ter amor ao próximo – desinteresseiro (!) – particularmente por aquele que sofre as agruras da doença; e, por fim: 3. Praticar seu ofício com os talentos de um artista: sensibilidade, observação, interpretação, concentração, fascinação, abstração, intuição, alegria, leveza, técnica, transformação de uma ideia em realidade concreta, amenizando ou dissimulando o sofrimento alheio… dentre outros. Se tais atributos compõem a arte e se eles se encontram somente no homo sapiens, infere-se, pelo silogismo aristotélico, que todos os seres humanos possuem, ainda que latentes, aptidões de artista.

Particularmente o médico, em sua formação e em sua lida diária, aprende a executar seu trabalho com habilidades de um artista. Entretanto, a medicina em si mesma é fonte de inspiração no desenvolvimento de habilidades artísticas incubadas. Dentre tantas, a literatura é mais comumente vista dentre os médicos.

Além do contato diuturno com a vida e a morte, a saúde e a enfermidade, a alegria e o desespero, o esplendor do bem-estar da juventude e a decrepitude inexorável da existência, o médico é instigado desde os bancos universitários a ler muito. Ora, não há bons escritores se esses não foram assíduos leitores, outra condição inerente à formação médica.

Mas o que é literatura, ou ainda, o que venha a ser escritor? Talvez a definição mais simples e ao mesmo tempo mais genial do que venha a ser um escritor foi a do chileno Pablo Neruda,pseudônimo famosíssimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto (1904-1973) e prêmio Nobel de Literatura de 1971. Disse ele: “Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca ideias”. Em outras palavras, o escritor é aquele que sabe colocar ideias, com sua arte, entre uma simples letra maiúscula e um ponto final de uma frase, de um parágrafo, de um período, de uma página, de um capítulo ou de um livro!

Talvez a literatura, em termos simplistas, possa ser definida como a arte de bem se ornamentar (escrever) no papel, ou hoje em dia, em meios virtuais, mensagens através de grafemas.

A literatura se faz pela materialização em caracteres gráficos de ideias abstratas do intelecto, com ou sem o concurso prévio da linguagem oral. Ela será tão mais artística quanto mais solta estiver dos tentáculos das letras do alfabeto.

Inspiração e expressão – conteúdo e forma, respectivamente –, são a essência ou a matéria-prima da arte literária, e a maneira sui generisde possuir e de desenvolver tais predicados diferenciará os escritores.

A vocação a escritor acompanha pari passuo desenrolar da vocação médica. Para desenvolver esse dote, em meio a tanta inspiração, há de se gostar de leitura, ser observador atento, não ter receio de expor seus sentimentos, ousar na concatenação de suas ideias através da palavra escrita; perseverar neste propósito e nutrir-se de um ambiente favorável.

Se a medicina trata da materialidade do corpo e da desorientação da mente e do comportamento, a arte lato sensué a expressão da alma humana, e, de modo particular, a arte literária torna palpáveis os sentimentos, materializa a força imponderável das ideias e a virtualidade dos pensamentos.

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[1]Asclépio, Ano 10 – no22 (julho-dezembro); 1-2, 2019 (Editorial).

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